..:: Sendo uma estrela, posso agora queimar hidrogênio.

  “O único mistério do Universo é o mais e não o menos.

Percebemos demais as causas – eis o erro, a dúvida.

O que existe transcende para mim o que julgo que existe.

A realidade é apenas real e não pensada.”

Fernando Pessoa, “Poemas inconjuntos”, em Ficções do Interlúdio

.::. Milhões de anos se passaram. A sapientíssima proto-estrela aguarda o almejado momento. Seu núcleo contrai vagarosamente, esvaziando-se de suas vaidades de plena grandeza. É preciso aquecer-se. Quanto mais queima, mas o fogo do desejo a alcança. A gravidade permanece implacável, sugando partículas do cosmos.

.::. Dada a elevadíssima e algoz temperatura, aproximadamente 12 milhões de Kelvin, as moléculas tornaram-se um plasma de corriqueiros elétrons livres. Incrivelmente, prótons fundem-se, vencendo a força tão repulsiva que os separa. O fervilhamento nuclear é deveras forte. Tal fusão emana poderosas energias nucleares. Os prótons, obrigatoriamente, fundem-se com outros elementos, formando uma molécula rica em energia. O desejo de poder da estrela é insuperável. Ela experimentou fundir esta nova molécula em seu núcleo. Nossa, que energia fantástica! Nunca havia experimentado sensação tão maravilhosa! Agora, seu único objetivo é alimentar-se dessa magnífica fonte energética, o hidrogênio.

.::. A brilhante e estonteante estrela sente que pode alimentar-se dessa fusão nuclear por bilhões de anos. O tempo de espera, paciência e ansiedade que antecederam este valioso momento valeu à pena. Ela está forte e viva como nunca!  

.::. A gravidade auxilia-a neste processo, não permitindo que a fortíssima energia interna gerada em seu próprio núcleo pelas reações nucleares a faça perecer. Este equilíbrio físico permite que a estrela preocupe-se apenas em brilhar. Funde-se o hidrogênio, explode a energia potencial gravitacional. Jamais havia ela brilhado tanto!

.::. Da queima deste precioso hidrogênio, sobram ainda os fatídicos prótons, e formam-se ainda moléculas pouco conhecidas pela estrela: o inconveniente hélio. Este fica lá, sedimentado, prostrado, como um resíduo indesejável. Além disso, para cada degustação de hidrogênio, permanece o quádruplo do inerte hélio. Mas, quem se importa? Agora que a estrela vive, o universo todo a conclama a brilhar! Rainha da luminosidade, fonte de vida e energia! Todos clamam! Anjos, voltem a dedilhar suas harpas e saltérios!

.::. O calor é intenso, e a temperatura extremamente elevada. A gravidade deseja imensamente compactar o núcleo em ebulição da estrela, amassando-o como uma frágil folha de papel. Mas a alta temperatura e as violentas reações nucleares não permitem a morte estelar. Uma incrível energia potencial consegue se opor às paredes gravitacionais. A estrela permanece em equilíbrio hidrostático. O hidrogênio, aos poucos, é ferozmente destruído. A camada de hélio está aumentando, compactando o núcleo. Alimento indigesto e resistente este tal de hélio, que mesmo a tamanha pressão e temperatura, não sofre reações nucleares.

.::. Bilhões de anos se passam, e a estrela permanece em glória celestial. O hidrogênio está quase completamente esgotado. O maior combustível estelar está por findar-se. A energia nuclear    , que até o presente momento combatera a gravidade de maneira imponente e corajosa, já sem seu principal recurso energético cósmico, passa a definhar. A gravidade, incansável, não perdoa: parte para o completo esmagamento do núcleo da estrela. Enquanto o hélio foi lentamente se depositando, a massa do núcleo aumentou. Melhor para a gravidade, sedenta por matéria. Momentos de tensão, no qual a estrela, em meio à dor, libera um forte clamor de luz. Pela primeira vez contempla sua existência a ser ameaçada pela vil gravidade.

.::. Mas, com a redução do volume nuclear, eis que a temperatura eleva-se bruscamente neste local. A estrela não desistiu. Reunindo todas as suas poderosas forças, com tamanho aumento da temperatura interna, cerca de 100 milhões de Kelvin, aquele indesejável hélio passa a fundir-se. A pressão é intensa. Algo que parecia impossível finalmente ocorre. Aquele resíduo desprezível torna-se um precioso combustível estelar. A energia potencial interna volta a se regenerar. A estrela está fervilhando novamente. A parede gravitacional recua. Foi um momento de grande susto em sua vida majestosa. 

.::. Com a fusão do hélio, a estrela sofre duras alterações em sua estrutura, mas nada que venha retirar dela seu brilho celestial. Muito pelo contrário. Uma nova fase em sua vida passa a iniciar-se.

.::. Um núcleo denso e quente contrasta com uma superfície amena, com temperatura de meros 4.000 Kelvin. Bolhas de gás incandescentes emanam na superfície, aumentando bruscamente a luminosidade estelar. Nossa guerreira está ainda mais viva, como nunca antes! Sua luminosidade aumentou nada mais nada menos que cerca de 1.000 vezes! Eis que está se expandindo! Sua glória é ainda mais voraz! Sua cor avermelhada indica uma baixa temperatura superficial. Deixou de ser uma simples estrela, que brilha por bilhões de anos no finito universo infinito. Agora, eis que se tornou, simplesmente, uma gigante vermelha!

.::. Sua enorme massa, pouco superior à massa mãe solar, possibilitou a contínua queima do não mais indesejável hélio. Seu núcleo sofreu modificações drásticas. Está agora repleto de elétrons em estado de degeneração maciça. A energia liberada por esses desesperados elétrons é gigante. A temperatura não é mais fator decisivo na grande disputa gravidadeXenergia potencial gravitacional. A fusão deste hélio gera um novo elemento químico, o carbono. A quantidade de energia liberada é tão magnífica, que o núcleo não suporta tamanha pressão e explode violentamente! Os muros gravitacionais agora tornam-se mocinhos, impedindo que os dejetos nucleares percam-se no infinito. Rapidamente a fatídica explosão é contida. A gravidade é resistente. A temperatura cai drasticamente, mas ainda é suficiente para a fusão nuclear do hélio. Fusão esta que aparentemente está controlada… Que se forme o carbono.

.::. Dado o aumento exagerado de tamanho, a glória estelar está se esvaindo. A ambição fora sobremaneira demasiada. A gigante avermelhada padeceu diante de sua própria condição. Eis que está perdendo muita massa, ejetando material no cosmos. A gravidade, extremamente cansada, não é suficiente para conter tal perda. Através dos ventos estelares, os fótons fazem com que a estrela derrame suas lágrimas em jatos de grãos de poeira cósmica. Outros pulsos de enormes energias definham a pobre estrela. Ela não está conseguindo resistir a tamanhos impactos energéticos e gravitacionais.

.::. O que restará desta catástrofe?

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