..:: O romance do nascimento de uma estrela.

“ O Universo não é uma idéia minha.
A minha idéia do universo é que é uma idéia minha.”
Fernando Pessoa, “Poemas inconjuntos”, em Ficções do Interlúdio

.::. O nascimento de uma estrela é algo celestial. Divino. Anjos deixam de dedilhar harpas e saltérios, esperançosos pela dolorosa concepção estelar. O universo está em silêncio, concentrado, aguardando o belo e tão esperado momento… todos os olhares do cosmos estão voltados para aquela gigante nuvem molecular que parece estar um pouco instável…

.::. Como uma sinfonia dramática, em que o maestro transpira, agitado, uma densa nuvem molecular gigante, bastante fria – para os padrões do universo – passa a se colapsar. Colapso este causado ainda por fatores pouco conhecidos. Pode ser que outra nuvem molecular gigante tenha invadido seu imenso território, causando uma colisão e um truculento distúrbio gravitacional. Ou ainda uma belíssima explosão de uma supernova próxima à região desta nuvem. Uma estrela que padece, para originar outra… Ou mais, turbulências magnéticas e verdadeiros terremotos gravitacionais, conhecidos como “ondas gravitacionais”, que percorrem os braços espiralados de galáxias brilhantes. Pode ser ainda uma combinação de tais fatos. Não se sabe ao certo…

.::. Mas o que realmente importa é a imparcialidade da gravidade. Esta é extremamente egoísta. Seu único desejo é atrair mutuamente os corpos de massa, de maneira implacável. Sua força aumenta bruscamente com o inverso do quadrado da distância entre as moléculas. As nuvens moleculares subdividem-se em gigantes células.

.::. Durante o processo, que podem durar ínfimos 1.000 anos, grande parte da explosiva energia potencial gravitacional é liberada, aquecendo a nuvem e expulsando bruscamente radiações térmicas para o finito universo infinito. No local em que as moléculas estão mais próximas, tentando se proteger, há um maior desejo de atração gravitacional. Consequentemente, maior é quantidade de energia comprimida. Maior é também a pressão exercida pelo gás de moléculas formado. Essa teimosa energia deseja somente escapar do colapso gravitacional. Um jogo de estica e puxa deixa as moléculas ao léu, por conta unicamente de seu fatídico destino. Quem manda agora é a pressão interna do gás que combate ferozmente a abrupta gravidade. Cabe às moléculas apenas se sujeitarem a estes gigantes. Quem vencerá este jogo? Ninguém… Ambos…

.::. Eis que é formado um quase equilíbrio, seja térmico, seja hidrostático ou gravitacional. As moléculas aguardam em silêncio a decisão. Ora vence um, ora prospera o outro. O jogo está praticamente empatado. Mas o empate é o melhor resultado. Uma proto-estrela é formada.

.::. Ao redor dessa movimentada partida, ou melhor dizendo, união, uma imensa platéia de moléculas acompanha o resultado. Elas ainda não foram atraídas pela gravidade muito menos compelidas pela pressão exercida pelos gases. Elas não desejam ser brilhantes estrelas. Para elas, a condição de planeta basta. É uma situação de extremo privilégio, em um universo tão rico e vasto.

.::. Mas, para isso, elas devem aguardar ainda anos, muitos e muitos anos… e muitas não agüentam tamanha ociosidade. Estão ansiosas para participar do jogo. São moléculas de gás e poeira, poxa vida! Desejam ser úteis em algo! Querem, como um todo, brilhar e fazer também parte da estrela… Isso tem certo preço…

 .::. Uma grande gama dessas moléculas, logicamente as mais próximas desta fusão, são ainda fortemente atraídas. O núcleo está quase que completamente ionizado, e tornou-se um plasma cósmico. Em floridos caminhos de espirais, as sôfregas moléculas de gás e poeira são atraídas pela gravidade e escoam suavemente para o núcleo denso e quente. A massa da proto-estrela aumenta. Estão todos muito agitados. Bilhões de moléculas perecem. A turbulência neste processo é formidavelmente grande.

.::. Parte do material é equivalentemente expelido para longe da concentração nuclear, em formas de jatos velozes e quentes que chegam à velocidade de 300 km/s, estendendo-se a milhares de anos-luz no espaço interestelar, perpendicularmente à rotação do núcleo estelar. Estes jatos provocam ondas de choque tremendas em uma já ferida nebulosa vizinha, fazendo com que o gás nela contido se aqueça e brilhe fortemente, como um clamor de socorro ou êxtase de energia cósmica.

.::. A estrela sofre, ainda, com o bombardeamento de radiações ultravioletas vindas de gigantes bem próximas. A fotoevaporação, como é conhecido este ataque letal, definha o processo de crescimento estelar. A gigantesca nuvem molecular busca perseverar, mas eis que surge a estrela, brilhando ainda em meio à poeira cósmica… O universo prostra-se diante deste milagre.
.::. A velocidade da contração estelar é reduzida. Em virtude deste fato, a energia gravitacional infla e explode, dando origem à luminosidade estelar. A estrela continua a se alimentar e, quanto mais rico e denso o alimento, maior a energia potencial gravitacional e maior a temperatura em seu núcleo.

.::. A coisa está esquentando…

.::. Bolhas de gases quentes eclodem na superfície mais fria da estrela. Como a água desesperada que ferve em uma panela, a estrela borbulha de paixão. Ela deseja mais. Muito mais energia. Muito mais massa. Ela deseja tornar-se uma verdadeira estrela, digna de ser denominada gigante!

.::. Mas, há um caminho ainda muito longo para se percorrer…

.::. Após 10 milhões de esperançosos anos, gradativamente a casta estrela, já com um núcleo devidamente estruturado, começará a produzir elementos químicos, que fornecerão o combustível necessário para sua brilhante existência. A temperatura em seu núcleo é já considerável: cerca de 10 milhões de Kelvins. A estrela está sedenta para produzir dolorosas reações nucleares com elementos leves como berílio, lítio e o deutério.

.::. Bom, agora basta gozar dos prazeres da existência estelar… mas não é bem assim.

.::. Dependendo do meio interestelar no qual as estrelas nasçam, da quantidade de matéria que acumularam até o momento de sua fase proto-estelar e de suas explosivas energias internas, elas percorrerão diferentes destinos. Uns de glória. Outros, nem tanto. Mas nada poderá impedir a beleza de ser o que elas realmente são: magníficas e densas estrelas, que iluminarão o universo por bilhões de anos! Nada no universo poderá subjugá-las… será?

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